Como ajudar as crianças a gerir as suas emoções?

As emoções fazem parte do desenvolvimento emocional e psicológico da criança. Medo, tristeza, frustração, raiva, ansiedade ou ciúme são experiências naturais da infância e têm um papel importante na forma como a criança aprende a conhecer-se a si própria, aos outros e ao mundo.
No entanto, as crianças nem sempre conseguem compreender, organizar ou expressar aquilo que sentem. Muitas vezes, as emoções surgem através do comportamento: irritabilidade, birras, isolamento, agitação, dificuldades escolares ou alterações no sono podem ser formas indiretas de comunicar sofrimento emocional.
Do ponto de vista psicodinâmico e das teorias da vinculação, ajudar uma criança a gerir emoções não significa eliminar emoções difíceis, mas ajudá-la a senti-las de forma segura, compreensível e regulada.
A importância da relação emocional
As teorias da vinculação mostram que as crianças desenvolvem a sua capacidade de regulação emocional através das relações com as figuras cuidadoras.
Quando um adulto consegue:
- acolher emoções;
- responder de forma consistente;
- ajudar a dar significado ao que a criança sente;
- transmitir segurança emocional;
a criança vai gradualmente internalizando essa capacidade de autorregulação.
Ou seja, antes de aprender a acalmar-se sozinha, a criança precisa primeiro de ser emocionalmente ajudada a regular-se na relação com o outro.
As emoções precisam de ser compreendidas, não apenas controladas
Por vezes, perante emoções intensas, os adultos tendem a focar-se apenas no comportamento:
- “Não chores.”
- “Isso não é motivo para ficares assim.”
- “Tens de te controlar.”
- “Porta-te bem.”
Embora muitas vezes ditas com boa intenção, estas respostas podem levar a criança a sentir que certas emoções são excessivas, erradas ou difíceis de aceitar.
Do ponto de vista psicodinâmico, quando as emoções não encontram espaço para serem reconhecidas e pensadas, podem acabar por ser expressas de outras formas:
- ansiedade;
- agressividade;
- retraimento;
- dificuldades relacionais;
- sintomas físicos;
- baixa autoestima.
A criança precisa não apenas de limites, mas também de sentir que aquilo que sente pode ser compreendido.
Ajudar a criança a nomear emoções
As crianças pequenas ainda não possuem totalmente a capacidade de identificar e organizar internamente aquilo que sentem.
Por isso, o adulto pode funcionar como alguém que ajuda a traduzir a experiência emocional:
- “Pareces muito zangado.”
- “Acho que isso te deixou triste.”
- “Foi difícil para ti quando isso aconteceu.”
- “Percebo que tenhas ficado assustado.”
Quando as emoções ganham nome e significado, tornam-se menos assustadoras e mais integráveis.
A importância da segurança emocional
Uma criança regula-se melhor quando sente:
- previsibilidade;
- proteção;
- disponibilidade emocional;
- consistência nas relações.
Isto não significa ausência de frustração ou conflito, mas sim a existência de uma relação suficientemente segura para que a criança consiga lidar com emoções difíceis sem se sentir sozinha ou emocionalmente perdida.
As teorias da vinculação mostram que crianças com relações emocionalmente seguras tendem a desenvolver:
- maior autoestima;
- melhor regulação emocional;
- maior confiança nas relações;
- mais capacidade de tolerar frustração;
- maior autonomia emocional ao longo do desenvolvimento.
O comportamento tem significado emocional
Na perspetiva psicodinâmica, o comportamento da criança é frequentemente entendido como uma forma de comunicação emocional.
Por trás de uma birra, agressividade ou oposição podem existir:
- sentimentos de insegurança;
- necessidade de atenção emocional;
- medo;
- dificuldade em lidar com separações;
- ansiedade;
- ciúmes;
- frustração;
- sofrimento não verbalizado.
Em vez de olhar apenas para o comportamento “difícil”, torna-se importante perguntar: “O que poderá esta criança estar a tentar comunicar?”
Os adultos também regulam através da sua própria presença emocional
As crianças são muito sensíveis ao estado emocional dos adultos.
Quando os cuidadores conseguem manter alguma capacidade de calma, contenção e reflexão perante emoções intensas da criança, ajudam-na também a organizar-se emocionalmente.
Isto não significa que os pais tenham de ser perfeitos. Significa apenas que a relação emocional pode funcionar como um espaço de segurança e reparação.
Quando procurar ajuda psicológica?
Algumas dificuldades emocionais fazem parte do desenvolvimento normal. No entanto, poderá ser importante procurar apoio psicológico quando:
- a ansiedade é persistente;
- existem alterações significativas de comportamento;
- surgem dificuldades escolares importantes;
- a criança parece muito triste, irritável ou isolada;
- existem dificuldades relacionais intensas;
- há regressões persistentes;
- os sintomas interferem significativamente no dia-a-dia.
A psicoterapia infantil pode ajudar a criança a compreender e expressar emoções de forma mais segura, promovendo um desenvolvimento emocional mais saudável.
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